Você não pode deixar de conhecer Hortance, a velha, uma mulher que transborda, que se derrama em lembranças guardadas dentro dela.

O monólogo interpretado brilhantemente pela bélica e poética Grace Gianoukas é um espetáculo necessário, essencial que coloca o dedo na ferida, os desejos sobre a mesa; que explode em delicadeza.

Hortance, a velha, é uma mulher empoderada, que não esconde o que sente, que é de propósito, que é de coragem, que traz na sua bagagem uma trajetória singular: Hortance, é a puta, é a cafetina, é a  filha, é a amiga, é anfitriã, é a própria luz da sua manhã, é poema em carne viva, é lasciva, apaixonante, solar.

Hortance não manda recado e nem tem medo de amar.

É uma mulher que dá alma a sua voz, que sempre deitou com quem quis sobre os seus lençóis.

Que me perdoem as belas, recatadas e do lar, mas Hortance, a velha, é de verdade sem ser vulgar.

É intensa, entregue, despudorada.

E Grace se apropria dessa dona de cabaré com potência, saliência e muita fé.

A direção inteligente, sofisticada, sensível, generosa e minimalista de Fred Mayrink, proporciona a atriz um dueto vivo entre o drama e humor.

E Grace deita e rola com a elegância, segurança e ousadia presente somente no DNA das grandes mulheres de teatro.

A exuberância está presente até na solidão decadente da protagonista.

O cenário de Juliana Carneiro é sublime, grandioso, requintado.

O figurino de Alessandra Barrios é costurado pela beleza das lembranças, é feito sob a medida do luxo e da luxúria.

A luz de Paulo Brakarz é quente como as melhores lembranças.

O texto de Gabriel Chalita é uma dança envolvente, provocante e sensorial.

Hortance é feminina, é feminista, é fêmea, é fatal.

Você não será o mesmo depois que conhecer e se reconhecer nessa velha.

Depois de atravessar e ser atravessado por esse tsunami humano.

Hortance está em cartaz até fevereiro no Teatro dos Quatro, no Shopping da Gávea, disposta a oferecer a alma do público, inspiração e orgasmos múltiplos pulsantes em seu baú de memórias, que provam definitivamente que mulheres ousadas, embriagadas de paixão e contraditórias, é que arrebatam um coração, é que fazem história.

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